O traceroute e o MTR são as ferramentas que mostram o caminho que os seus pacotes fazem até um destino na internet, roteador por roteador. São as mais úteis para descobrir onde está uma perda ou uma lentidão, e também as mais mal interpretadas.
Muita gente olha o resultado, vê "perda de 60%" no meio do caminho e liga para a operadora. Às vezes está certo. Muitas vezes não é nada. Este artigo mostra como ler o resultado sem cair nas armadilhas.
Traceroute, pathping e MTR: qual a diferença
- Traceroute (no Windows,
tracert): mostra os roteadores do caminho, com três medições de tempo para cada um. É uma foto rápida. Não mede perda direito. - Pathping (já vem no Windows): mostra o caminho e depois mede a perda em cada salto por alguns minutos.
- MTR (Linux e Mac; no Windows, o programa WinMTR): faz as duas coisas sem parar, atualizando a perda e os tempos de cada salto a cada segundo. É o mais completo.
Para gerar um relatório de MTR com 100 medições:
mtr -rwzc 100 8.8.8.8
O -r gera o relatório no final, o -w mostra os nomes completos, o -z mostra a qual rede (operadora) cada roteador pertence e o -c 100 define quantas medições fazer.
As colunas do MTR
| Coluna | O que significa |
|---|---|
| Host | O roteador daquele salto (nome ou endereço). "???" quer dizer que ele não respondeu. |
| Loss% | Porcentagem das medições sem resposta naquele salto. |
| Snt | Quantas medições foram enviadas. |
| Last, Avg, Best, Wrst | Tempo de ida e volta, em milissegundos: a última medição, a média, a melhor e a pior. |
| StDev | O quanto o tempo varia. Valor alto indica instabilidade (jitter). |
Regra 1: só vale a perda que continua até o fim
Esta é a regra mais importante. Veja um exemplo:
Host Loss% Snt Avg Best Wrst
1. 192.168.0.1 0.0% 100 0.8 0.5 2.1
2. 10.20.0.1 0.0% 100 4.2 3.1 9.8
3. 187.x.x.1 62.0% 100 6.9 5.2 31.4
4. 200.x.x.9 0.0% 100 7.4 6.0 12.2
5. 8.8.8.8 0.0% 100 8.1 7.2 13.0
O salto 3 mostra 62% de perda, mas os saltos 4 e 5 têm zero. Se o salto 3 estivesse realmente perdendo pacotes, o 4 e o 5 também perderiam, porque o tráfego passa por ele.
O que acontece é que muitos roteadores de operadora respondem às medições com prioridade baixa. Eles estão ocupados encaminhando tráfego de verdade e deixam as respostas ao MTR para depois, ou descartam parte delas de propósito. Perda num salto do meio que não continua nos seguintes não é problema.
Agora compare:
Host Loss% Snt Avg Best Wrst
1. 192.168.0.1 0.0% 100 0.9 0.5 2.4
2. 10.20.0.1 8.0% 100 21.5 3.4 88.2
3. 187.x.x.1 9.0% 100 23.1 5.1 91.0
4. 200.x.x.9 8.0% 100 24.0 6.2 90.7
5. 8.8.8.8 9.0% 100 24.6 7.0 92.3
Aqui a perda começa no salto 2 e continua até o destino. Isso é problema de verdade, e ele começa logo depois do seu roteador: no link ou no primeiro equipamento da operadora.
Regra 2: aumento de tempo também precisa continuar
A mesma lógica vale para a latência. Um salto do meio com tempo alto, seguido de saltos com tempo baixo, é só aquele roteador respondendo devagar. O que importa é quando o tempo sobe num salto e continua alto até o destino.
Nem todo aumento é defeito. Se o tempo pula de 10 para 120 ms num salto e fica assim, pode ser simplesmente a travessia para outro continente. O nome do roteador ou a rede mostrada pelo -z costuma indicar isso.
Regra 3: olhe o primeiro salto com atenção
O salto 1 é o seu roteador. Se já há perda ou variação grande nele, o problema está dentro da empresa: Wi-Fi, cabo, switch ou o próprio roteador. Faça o teste por cabo para confirmar. O artigo Internet lenta na empresa mostra esse passo a passo.
Outras armadilhas
- "???" ou asteriscos. O roteador daquele salto não responde a medições. Se os saltos seguintes respondem, não é problema.
- Perda só no destino final. Alguns servidores limitam as respostas a ping. Confirme testando outro destino, ou use o MTR em modo TCP, que imita uma conexão real:
mtr -T -P 443 site.com.br. - O caminho de volta é outro. O MTR mostra só o caminho de ida. A resposta pode voltar por outro caminho, e o problema pode estar nele. Quando possível, faça o teste também do outro lado, por exemplo do servidor em direção à empresa.
- Poucas medições. Com 10 medições, uma perda de 10% é um pacote só. Use pelo menos 100.
- Teste fora da hora do problema. Um MTR limpo às 10h não prova nada sobre a queda das 15h. Rode no momento em que o problema acontece, ou de forma contínua.
Como usar o MTR no chamado da operadora
Um relatório de MTR com 100 ou mais medições, feito na hora do problema, é uma das evidências mais fortes que você pode levar à operadora. Envie junto:
- o relatório completo, com data e hora;
- o salto onde a perda ou a latência começa e continua até o destino;
- um MTR do mesmo momento para outro destino, mostrando que o problema se repete.
À frente da Tech Wan desde 2008, trabalha com redes e Wi-Fi de empresas e criou o NetMonitor.
Quer o MTR rodando sozinho, o dia inteiro?
O NetMonitor faz o MTR de cada computador até a internet de forma contínua, guarda o histórico e aponta quando a perda está na operadora. Quando a queda acontecer, o relatório já está pronto.