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Artigos · Lentidão e rede

Como ler um teste de MTR ou traceroute sem cair nas armadilhas

Perda de 60% no meio do caminho nem sempre é problema. Veja as três regras para ler o resultado e saber quando a culpa é mesmo da operadora.

Por Wagner · Tech Wan · 17 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

O traceroute e o MTR são as ferramentas que mostram o caminho que os seus pacotes fazem até um destino na internet, roteador por roteador. São as mais úteis para descobrir onde está uma perda ou uma lentidão, e também as mais mal interpretadas.

Muita gente olha o resultado, vê "perda de 60%" no meio do caminho e liga para a operadora. Às vezes está certo. Muitas vezes não é nada. Este artigo mostra como ler o resultado sem cair nas armadilhas.

Traceroute, pathping e MTR: qual a diferença

  • Traceroute (no Windows, tracert): mostra os roteadores do caminho, com três medições de tempo para cada um. É uma foto rápida. Não mede perda direito.
  • Pathping (já vem no Windows): mostra o caminho e depois mede a perda em cada salto por alguns minutos.
  • MTR (Linux e Mac; no Windows, o programa WinMTR): faz as duas coisas sem parar, atualizando a perda e os tempos de cada salto a cada segundo. É o mais completo.

Para gerar um relatório de MTR com 100 medições:

mtr -rwzc 100 8.8.8.8

O -r gera o relatório no final, o -w mostra os nomes completos, o -z mostra a qual rede (operadora) cada roteador pertence e o -c 100 define quantas medições fazer.

As colunas do MTR

ColunaO que significa
HostO roteador daquele salto (nome ou endereço). "???" quer dizer que ele não respondeu.
Loss%Porcentagem das medições sem resposta naquele salto.
SntQuantas medições foram enviadas.
Last, Avg, Best, WrstTempo de ida e volta, em milissegundos: a última medição, a média, a melhor e a pior.
StDevO quanto o tempo varia. Valor alto indica instabilidade (jitter).

Regra 1: só vale a perda que continua até o fim

Esta é a regra mais importante. Veja um exemplo:

 Host                 Loss%  Snt   Avg  Best  Wrst
 1. 192.168.0.1        0.0%  100   0.8   0.5   2.1
 2. 10.20.0.1          0.0%  100   4.2   3.1   9.8
 3. 187.x.x.1         62.0%  100   6.9   5.2  31.4
 4. 200.x.x.9          0.0%  100   7.4   6.0  12.2
 5. 8.8.8.8            0.0%  100   8.1   7.2  13.0

O salto 3 mostra 62% de perda, mas os saltos 4 e 5 têm zero. Se o salto 3 estivesse realmente perdendo pacotes, o 4 e o 5 também perderiam, porque o tráfego passa por ele.

O que acontece é que muitos roteadores de operadora respondem às medições com prioridade baixa. Eles estão ocupados encaminhando tráfego de verdade e deixam as respostas ao MTR para depois, ou descartam parte delas de propósito. Perda num salto do meio que não continua nos seguintes não é problema.

Agora compare:

 Host                 Loss%  Snt   Avg  Best  Wrst
 1. 192.168.0.1        0.0%  100   0.9   0.5   2.4
 2. 10.20.0.1          8.0%  100  21.5   3.4  88.2
 3. 187.x.x.1          9.0%  100  23.1   5.1  91.0
 4. 200.x.x.9          8.0%  100  24.0   6.2  90.7
 5. 8.8.8.8            9.0%  100  24.6   7.0  92.3

Aqui a perda começa no salto 2 e continua até o destino. Isso é problema de verdade, e ele começa logo depois do seu roteador: no link ou no primeiro equipamento da operadora.

Regra 2: aumento de tempo também precisa continuar

A mesma lógica vale para a latência. Um salto do meio com tempo alto, seguido de saltos com tempo baixo, é só aquele roteador respondendo devagar. O que importa é quando o tempo sobe num salto e continua alto até o destino.

Nem todo aumento é defeito. Se o tempo pula de 10 para 120 ms num salto e fica assim, pode ser simplesmente a travessia para outro continente. O nome do roteador ou a rede mostrada pelo -z costuma indicar isso.

Regra 3: olhe o primeiro salto com atenção

O salto 1 é o seu roteador. Se já há perda ou variação grande nele, o problema está dentro da empresa: Wi-Fi, cabo, switch ou o próprio roteador. Faça o teste por cabo para confirmar. O artigo Internet lenta na empresa mostra esse passo a passo.

Outras armadilhas

  • "???" ou asteriscos. O roteador daquele salto não responde a medições. Se os saltos seguintes respondem, não é problema.
  • Perda só no destino final. Alguns servidores limitam as respostas a ping. Confirme testando outro destino, ou use o MTR em modo TCP, que imita uma conexão real: mtr -T -P 443 site.com.br.
  • O caminho de volta é outro. O MTR mostra só o caminho de ida. A resposta pode voltar por outro caminho, e o problema pode estar nele. Quando possível, faça o teste também do outro lado, por exemplo do servidor em direção à empresa.
  • Poucas medições. Com 10 medições, uma perda de 10% é um pacote só. Use pelo menos 100.
  • Teste fora da hora do problema. Um MTR limpo às 10h não prova nada sobre a queda das 15h. Rode no momento em que o problema acontece, ou de forma contínua.

Como usar o MTR no chamado da operadora

Um relatório de MTR com 100 ou mais medições, feito na hora do problema, é uma das evidências mais fortes que você pode levar à operadora. Envie junto:

  1. o relatório completo, com data e hora;
  2. o salto onde a perda ou a latência começa e continua até o destino;
  3. um MTR do mesmo momento para outro destino, mostrando que o problema se repete.
Wagner

À frente da Tech Wan desde 2008, trabalha com redes e Wi-Fi de empresas e criou o NetMonitor.

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